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sábado, 1 de setembro de 2007

Programa de Inclusão leva mais estudantes negros e pobres à USP

Inclusp dá pontos adicionais no vestibular da Fuvest a alunos de escolas públicas, sem distinção de renda ou cor
Renata Cafardo

O programa de inclusão da Universidade de São Paulo (USP), que começou a funcionar neste ano, aumentou em 9,5% o número de negros matriculados na instituição. O Inclusp, como é chamado, dá pontos adicionais na nota do vestibular da Fuvest para alunos de escolas públicas, sem distinção de renda ou cor. "O resultado mostra que o programa é uma alternativa ao sistema de cotas", diz a pró-reitora de graduação da USP, Selma Garrido Pimenta.

As cotas existem atualmente em 16 das 57 universidades federais, mas sempre houve muita resistência a uma eventual reserva de vagas na USP. A maior universidade do País, no entanto, também sofria pressão para aumentar o número de alunos carentes e negros, que representavam apenas cerca de 20% do total. O Inclusp foi lançado no ano passado - inspirado em experiência semelhante da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - e tinha o objetivo de mostrar que poderia haver inclusão sem cotas.

Os resultados indicam também que 76,4% dos estudantes de escolas públicas matriculados neste ano têm renda familiar inferior a R$ 3 mil. A maior parte deles (39,5%) vem de famílias com renda entre R$ 500 e R$ 1.500. Só 3,7% desses alunos têm renda familiar acima de R$ 7 mil. Isso ocorre apesar de as escolas públicas que mais aprovam estudantes na Fuvest não estarem em zonas periféricas e pobres, como o Estado mostrou em reportagem no início do mês.

"Fica nítido que o aproveitamento nas aulas dos alunos que vieram de escolas públicas é menor, incluindo o meu", diz Jaqueline Saes, de 21 anos, aluna do primeiro ano de História da USP. A renda da família - que inclui ela, a mãe e a avó - é de R$ 2 mil. Jaqueline conta que trabalha em uma farmácia há três anos e teve de estudar muito aos finais de semana para conseguir ser aprovada. "As pessoas achavam que eu não tinha chance de entrar na USP e agora se espantam por eu estar aqui", diz, sobre os colegas de faculdade.

A USP não divulgou o porcentual de alunos de renda baixa entre o total de matriculados em 2007, beneficiados ou não pelo Inclusp. O site da Fuvest mostra as estatísticas apenas até 2006. Elas indicam que, tradicionalmente, cerca de 40% dos aprovados vêm família com renda de até R$ 3 mil.

Pretos e Pardos
No ano passado, entraram na USP 1.227 alunos negros (pretos e pardos). Neste vestibular, foram 117 a mais. O número representa atualmente 13,4% dos estudantes da universidade. O porcentual de brancos ingressantes caiu de 77,1% para 76,6%. "Indiretamente, quando se ajuda o pobre, o negro é beneficiado", diz o aluno do primeiro ano de Química da USP, Arcelino Bezerra da Silva, de 21 anos. Ele é negro e estudou em escola pública. O Inclusp - que dá bônus de 3% na nota dos estudantes de escolas públicas - aumentou em 17 pontos o desempenho de Silva na Fuvest.

"Os mecanismos dessa ação afirmativa ainda mantêm a exclusão dos pretos e pobres", acredita Douglas Belchior, coordenador da ONG Educafro, que administra cursinhos para alunos carentes. Ele defende que a USP adote um sistema de cotas, beneficiando tanto negros quanto carentes. "A Fuvest usa a meritocracia e privilegia alunos que tiveram mais oportunidades nas escolas particulares."

Segundo os dados mais recentes da universidade, o Inclusp aumentou em 11% o número de estudantes de escolas públicas na instituição. Eles representam atualmente 26,7% do total de alunos.

De acordo com Selma, a partir de 2008 todos os novos matriculados na USP deverão obrigatoriamente responder a um questionário socioeconômico para que as informações sobre a totalidade dos alunos sejam mais precisas. Hoje, só alunos que precisam de bolsas fornecem esse tipo de informação à instituição.

Notas

Os números da USP mostram também que os alunos de escolas públicas aprovados tiveram média de 37,01 (em 100) na prova da primeira fase da Fuvest, considerada baixa. A média de todos os cerca de 150 mil candidatos da Fuvest em 2006, por exemplo - aprovados ou não aprovados - foi superior: 41,39.

Entre os matriculados na USP, independentemente de terem estudado em escolas públicas ou não, as médias também costumam ser mais altas. No curso de Administração, por exemplo, em 2006, a média dos matriculados foi de 70,5 pontos na primeira fase. Os alunos de História e de Letras tiveram média de 62,2 e 56,6, respectivamente.

domingo, 26 de agosto de 2007

Redação nota 10 do Enem pode ter erro de português

Para obter nota máxima é preciso ter argumentos e propor soluções para o tema. Banca formada por 1.800 professores faz a correção rigorosa.
Por: Fernanda Bassette Do G1, em São Paulo
Não é necessário ter um texto impecável, sem erros de ortografia, para tirar 10 na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para alcançar a nota máxima na prova, o aluno precisa escrever um texto bem "amarrado", que traga argumentos e propostas de soluções para o tema em questão.

No próprio site do Enem, o estudante encontra exemplos de redações que receberam nota 10 e que possuem pequenos erros de ortografia. O G1selecionou alguns trechos, leia aqui.

"O 'x' da questão é o aluno mostrar para o corretor que ele sabe argumentar sobre o tema proposto. Um acento faltando, uma palavra grafada incorretamente, ou a falta de um hífen não interferem na nossa análise. Não consideramos o erro pelo erro. Avaliamos o erro dentro do contexto", explica a professora Gisele Gama, coordenadora geral de correção das redações do Enem no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo exame.
Segundo a professora Gisele, se, por exemplo, um aluno escreve paralisação com "z" mas fez um texto coeso, com bons argumentos e de acordo com a proposta apresentada, ele não terá a nota final prejudicada por isso. "Ninguém domina completamente a língua portuguesa. Na dúvida, o aluno tem a opção de substituir a palavra por outra, nem que ele tenha que reescrever a frase. O bom escritor é aquele que também consegue mudar uma palavra", diz.

O professor Francisco Platão Savioli, coordenador de gramática, textos e redação do cursinho Anglo, concorda com a posição de Gisele. "A redação não tem como objetivo avaliar os conhecimentos 'prontos' do aluno e sim a capacidade que ele tem de construir conhecimento a partir de um tema que ele nunca viu uma resposta pronta antes. Escrever paralisação com 'z' não interfere no conteúdo da redação. É diferente de um aluno que escreve gente com 'j'. Você percebe na hora que o estudante tem dificuldades com a língua", diz o professor.

Bruno Rabin, professor de redação e interpretação de textos do cursinho Vestibular de A a Z, no Rio de Janeiro, diz que é muito fácil para o corretor identificar o aluno que tem repertório cultural, por isso os erros de ortografia não pesam tanto. "Forma e conteúdo andam juntos. Dificilmente um aluno que tem sérios erros conseguirá escrever uma boa redação", avalia.

Propor soluções e fugir do senso comum
Segundo a professora Gisele, outro fator muito importante na redação do Enem é que o aluno se posicione sobre o problema apresentado e fuja do senso comum. Ela acrescentou que o estudante precisa escrever sua posição pessoal sobre o tema e não ir à prova com uma 'receita de bolo'.

"A maioria dos alunos é treinada e tem uma receita de bolo pronta. Se todos escreverem da mesma forma é ruim. O aluno não tem que escrever o que ele acha que o corretor vai gostar, pois ninguém será punido por redigir algo que o outro não quer ouvir", destaca.

A professora de redação do cursinho Etapa, Célia Passoni, concorda. "Para propor soluções, o aluno precisa ter uma visão geral do cotidiano, precisa ler jornais, revistas. Além disso, ele tem textos de apoio que funcionam como uma 'bengala de velho' para ajudá-lo a caminhar. Mas, mesmo que um aluno treine muito um tema que ele suspeita que será cobrado na prova, é impossível ter uma redação pronta", afirma.

Correção rigorosa
Segundo Gisele, a correção das redações do Enem é feita por cerca de 1.800 corretores - afinal são 3,5 milhões de provas para serem analisadas. As provas são digitalizadas e distribuídas para a banca de corretores e cada texto é avaliado por duas pessoas. Se por acaso houver discrepância nas notas, automaticamente a redação passa para um terceiro avaliador.

"Fazemos todo o possível para manter o mesmo critério de correção para todos os alunos. Ao final do processo, sabemos que todos os estudantes receberam a nota adequada", completa Gisele.

Trechos de redações que tiraram nota 10 no Enem 2006
Título: Ler para compreender"Porém, conter um bom vocabulário não torna-se (sic) o único meio de “vencer na vida”. É preciso ler e compreender para poder opinar, criticar e modificar situações. Diante de tudo isso, sabe-se que o mundo da leitura pode transformar, enriquecer culturalmente e socialmente o ser humano. Não podemos compreender e sermos compreendidos sem sabermos utilizar a comunicação de forma correta e, portanto, torna-se indispensável a intimidade com a leitura."

Título: Benefícios da leitura "A leitura permite ao homem se comunicar, aprender e até mesmo desenvolver, trabalhar suas dificuldades. Em reportagem recente, uma grande revista de circulação nacional atribuiu à leitura, a importância de agente fundamental para a transformação social do nosso país. Através do conhecimento da língua, todos tem (sic) acesso à informação e são capazes de emitir uma opinião sobre os acontecimentos. Ter opinião é cidadania e essa parte pode ser a grande transformação social do Brasil."
Título: Quadro negro"Em uma esfera mais prática, pode-se perceber que nenhum grande pensador fez-se uma exceção e não deixou seu legado através da escrita, dos seus livros, das anotações. Exemplos não são escassos: de Aristóteles a Nietzsche, de Newton a Ohm, sejam pergaminhos fossilizados ou produções da imprensa de Gutenberg, muito devemos a esses escritos. Desta forma, iniciarmos o nosso processo de transformação adquirindo tamanha produção intelectual que nos é disponibilizada"

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Justiça suspende cobrança por diploma no Maranhão

da Agência Folha
A Justiça Federal do Maranhão proibiu a cobrança de taxa de expedição ou registro de diploma em seis instituições privadas de ensino superior do Estado.
Segundo a decisão do juiz federal Marcelo Dolzany da Costa, de São Luís, resolução do Conselho Federal de Educação estabelece que o pagamento por serviços relativos ao ensino, entre eles o fornecimento de diploma, já está incluído na anuidade paga pelos alunos. A resolução proíbe também, segundo a decisão, que instituições de ensino condicionem o fornecimento do diploma ao pagamento de taxas.
A decisão não atinge os alunos das universidades públicas do Estado. Segundo o Ministério Público Federal no Maranhão, autor da ação, estudantes das universidades federais e estaduais não pagam mensalidade e, por isso, a cobrança pelo diploma foi mantida.
A UFMA (Universidade Federal do Maranhão), instituição que faz o registro dos diplomas no Estado, informou que cobra R$ 50 de alunos da instituição e R$ 100 de estudantes de outras faculdades para fornecimento do documento.
A ação civil pública proposta pela Procuradoria foi motivada por representação de aluna da FAC São Luís (Faculdade de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas), que relatou a cobrança de R$ 300 pelo diploma. A FAC São Luís informou que não cobra taxa de expedição do diploma e que irá recorrer da decisão no que se refere ao pagamento, pela instituição, da taxa de registro cobrada pela UFMA.
O diretor-financeiro da Faculdade Santa Fé, Felipe Mussalem, uma das instituições atingidas pela decisão, disse suspendeu a taxa de R$ 108 pelo diploma, mas que não é possível absorver os R$ 100 cobrados pela UFMA. Ele disse que irá recorrer caso o juiz entenda que a instituição deva absorver também esse custo. Outras instituições atingidas disseram que estão avaliando a possibilidade de recorrer.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Graduação a distância amplia acesso ao ensino

FERNANDA CALGARO
da Folha de S.Paulo

Os cursos de graduação a distância ou não-presenciais são uma modalidade de ensino em que o aluno quase não vai à faculdade e, às vezes, só o faz para responder às provas. Em geral, uma parte da carga horária do programa é presencial e a outra, consideravelmente maior, a distância. Há cursos ainda totalmente on-line, em que o estudante só realiza a prova in loco.

Para isso, os cursos se valem bastante de recursos tecnológicos, como internet, bate-papo virtual, áudio ou videoconferência, rádio e TV. Mas o correio também é usado. As atividades presenciais costumam acontecer nos pólos, unidades de ensino conveniadas com a faculdade.

Em sala de aula, sempre deve haver um professor, que é chamado de tutor, que irá passar atividades e auxiliar nas dúvidas. Também há um tutor a distância, que fica na universidade, acessível por e-mail, portal da instituição na internet ou telefone. No entanto, o diploma é expedido pela faculdade a qual o curso pertence.

Michelangelo Martins Alves, 26, vai uma vez por semana no pólo da faculdade que cursa a distância. "Costumo acessar o material pela internet em geral de madrugada, que é quando dá tempo. E, se tenho alguma dúvida, escrevo no portal e em até 12 horas tenho a resposta. Posso também ler textos de apoio da biblioteca virtual", diz.

Um decreto do final do ano de 2005 regulamentou a equivalência irrestrita entre diplomas presenciais e a distância.

"Por lei, o diploma de um curso a distância tem validade idêntica a qualquer outro curso presencial", afirma Ronaldo Mota, secretário de Educação a Distância. Um decreto do mês passado prevê ainda o recredenciamento de todos os pólos do país. "A intenção é ter um controle maior e preservar a qualidade", diz.

Para fazer o curso, o estudante tem de passar pelo processo de seleção normalmente.

Democratização

Em 2005, havia 82 cursos de graduação e tecnológicos a distância credenciados e mais de 109 mil alunos matriculados, segundo o Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância de 2006.

"A implantação da educação a distância é muito recente no país, data do fim da década de 90", afirma Waldomiro Loyolla, diretor-científico da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância).

"A oferta de cursos de graduação a distância tem crescido bastante nos últimos anos no Brasil. Considero isso importante para ampliar o acesso ao ensino superior, mas é preciso ficar atento para não haver queda na qualidade", pondera Nelio Bizzo, professor de metodologia do ensino a distância da faculdade de educação da USP.